A falácia do esgotamento da opção pelo consumo

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O tema é recorrente e volta à tona cada vez que um novo indicador mostra a situação precária da indústria e da infraestrutura no Brasil como se a atenção ao consumo fosse antagônica à preocupação com a poupança e à melhoria das condições competitivas nesses setores. Vários pontos precisam ser esclarecidos.

O forte crescimento do consumo e do comércio no Brasil, especialmente nos últimos dez anos, quando esses setores expandiram mais fortemente do que o PIB, foi por conta da transformação sócio-econômica na sociedade que incorporou perto de 50 milhões de pessoas à classe média, pelo aumento da renda, do emprego, da oferta de crédito e do nível de confiança dos consumidores.

Apesar do consumidor brasileiro pagar os maiores juros globais e termos um sistema de análise de crédito ao consumo dos mais evoluídos, esse crescimento, como seria natural, aumentou o endividamento das famílias, porém o nível de inadimplência mantem-se em patamares inferiores ao que já foi no passado e sob controle, graças às cautelas, em muitos casos, excessiva, com que é analisada a concessão a novos tomadores.

Essa transformação trouxe novas demandas de produtos e serviços que foram parcialmente atendidas pela oferta local e foi complementada pelo aumento das importações que mostram tendência de forte crescimento pelo esgotamento da capacidade local de atender, competitivamente, esse aumento da demanda, em especial em alguns setores menos preparados.

No período dos últimos dez anos, como em toda a história do consumo no país, jamais as empresas que atuam no comércio e no varejo tiveram qualquer forma de proteção ou restrição à competição global, como ocorre em outros países emergentes, como China e Índia, tendo como resultado o fato de que o crescimento e amadurecimento de mercado foi feito por conta e obra da saudável competição entre empresas locais e conglomerados globais disputando a preferência dos consumidores que foi, em última análise, o maior beneficiário dessa competição.

Apesar do forte crescimento dos últimos dez anos ainda existe uma grande demanda por produtos e serviços que podem melhorar a qualidade de vida da população por incorporação de alternativas de produtos e serviços mais modernos, que reduzem o consumo de energia e oferecem mais benefícios aos compradores, particularmente na classe média expandida e nos segmentos de menor poder aquisitivo.

Neste momento, a confiança empresarial e dos consumidores é o mais importante fator limitador a uma maior expansão do consumo e essa componente só poderá ter uma reversão, eventualmente, a partir dos final deste ano, dependendo do que aconteça no período eleitoral.

Os fatores mais críticos na evolução do desenvolvimento industrial brasileiro são determinados por uma conjugação viciosa de taxas de juros elevadas, impostos e estrutura tributária anacrônica, custos sociais e trabalhistas desconectados da realidade global, uma carga burocrática defasada e insana que onera a operação dos negócios e uma defasagem cambial que inibe a competitividade dos produtos feitos no Brasil.

Nada tem a ver com a evolução do consumo e do comércio. Ao contrário. Não tivesse ocorrido esse crescimento o desemprego estrutural gerado pela incapacidade competitiva do setor industrial teria sido dramático.

No âmbito da infra estrutura a questão fundamental é o desvio e o uso inadequado e incompetente dos recursos existentes. Estão aí inúmeros exemplos de projetos que não saíram do papel ou que estão atrasados e/ou demandando muito mais recursos do que originalmente previsto.

Repetir o chavão de que o modelo de crescimento baseado na expansão do consumo está esgotado é, para dizer o mínimo, falta de criatividade.

Existe muito espaço ainda para a expansão da demanda por bens e serviços em todo o país por consumidores que recém chegaram ao mercado e anseiam por poder evoluir em seus desejos.

O que precisa ser feito de fato é buscar alternativas estruturais, econômicas e políticas para conciliar a reconquista de espaço para os segmentos industriais que podem ser competitivos no xadrez global ao mesmo tempo que se trabalhe a reconfiguração do sistema tributário e trabalhista e se revejam práticas, processos e organização nas questões que envolvem a infra estrutura. Todo o mais é paliativo.

Nota: Alinhado com o momento que vive o mercado, o 17º Fórum de Varejo da América Latina, realizado pela GS&MD – Gouvêa de Souza, nos dias 26 e 27 de Agosto, no auditório da Fecomércio, em São Paulo, terá com tema central a busca da Eficiência e Produtividade no setor. Acesse o programa completo através do site www.forumdevarejo.com.br.

Marcos Gouvêa de Souza é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza.

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