Surpreendente e Inspirador

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Uma primeira visita a Dubai e Abu Dhabi a gente nunca mais esquece. O mínimo que se pode dizer é que sua visão pessoal da região e o que acontece por lá nunca mais será a mesma. Tudo é maiúsculo, planejado com visão e precisão e o mais surpreendente é que feito por pessoas que não muito tempo atrás eram beduínos vivendo no deserto. E sem nenhum demérito, pelo caso, é ainda mais importante para buscar melhor entender o incrível processo de desenvolvimento e amadurecimento que vive a região e aprender a respeitar e valorizar o que tem sido feito.

A visão distante tenderá a simplificar conclusões relacionando tudo ao rico mundo do petróleo mas o que pode ser aprendido vai muito além dessa primeira evidente constatação.

Tem muito a ver com planejamento, modelo de liderança, visão de longo prazo, busca da melhoria contínua, recrutamento dos melhores talentos e, pode surpreender, tem a ver com a própria religião.

As duas são cidades do Emirados Árabes construídas do praticamente nada e, cada uma a seu jeito, vivem seu boom a partir da economia do petróleo, porém seus líderes, de forma inspiradora e ambiciosa, se propuseram a fazer da riqueza obtida da extração o passaporte para uma economia baseada em comércio e serviços, redesenhando estrategicamente a região e preparando para um outro futuro.

Que cidade no mundo desenha um projeto que pode reunir um empreendimento de 27 milhões de m2 de área envolvendo edifícios comerciais, residenciais e casas (estimativa de 145 mil habitantes), shopping center, praias públicas e privadas, áreas de lazer e entretenimento e, no mesmo projeto, um Museu Guggenheimque inauguraem 2017 e um Louvre, que já abrirá em 2015 e mais o principal museu nacional Zayed, dois hotéis, o St Regis e Park Hyatt e mais um campus da New York University, como o que está sendo na ilha Saadiyat em Abu Dhabi pelo consórcio TDIC – Tourism Development & Investment Company ? Esse projeto foi concebido em 2007 e faz parte de um planejamento estratégico maior desenvolvido com o nome de Visão 2030. Por si só isso já seria uma forte inspiração.

Na própria Abu Dhabi também acaba de ser inaugurado mais um shopping com 2,7 milhões m2 e 370 lojas, o Yas Shopping com as mais importantes marcas de todo o Mundo, uma arquitetura única, aberta, interativa e diferenciada, coincidentemente no autódromo integrado ao empreendimento e na mesma semana que ocorre a etapa final do Campeonato Mundial da Fórmula 1, com a decisão do ano acontecendo nessa corrida.  Simples coincidência ? Seguramente não, pois os exemplos de planejamento e visão são eloquentes demais para algo ser creditado ao acaso.

Em Dubai alguns dos maiores empreendimentos imobiliários globais brotaram do deserto por conta da ambição e visão de desenvolver um destino turístico e de negócios que criasse uma nova realidade econômica complementar àquela emergente do petróleo.

Nesse contexto surgiu o mais alto edifício do mundo o Burj Al Khalifa, com residências, escritórios, o hotel Armani e integrado ao Dubai Mall com mais de 1200 lojas com praticamente todas as marcas mais importantes do varejo global, inclusive com uma franquia da Havaianas, e um aquário de impressionantes dimensões e mais uma pista de patinação e um bazar coberto tradicional, o Souk, que criaram um dos maiores centros de compras e entretenimento no mundo.

Todo esse complexo, onde agora está sendo construída a Ópera House,  é circundado por um lago que reproduz diariamente os mesmos shows das fontes do Bellagio em Las Vegas,  porém tudo em escala um pouco maior e onde, no quarto do hotel você assiste o show e o som interno traz exatamente a mesma música que é tocada para o público que se reúne para assistir o espetáculo. Tecnologia a serviço da experiência.

Na mesma cidade o Mall of Emirates é considerado um dos maiores shoppings centers  em área em 4 andares com ABL de 234 mil m2, mais de 550 lojas, 11 ancoras e 97 restaurantes, integrado com dois hotéis, um Sheraton e o Kempinsky e mais o Magic Planet, um centro de diversões e entretenimento e, para dar o tom da diferenciação, além de uma impressionante lista de algumas das mais importantes marcas de varejo e serviços, possui o Ski Dubai um complexo com cinco pistas de esqui indoor com temperatura mantida a três graus e implantada à beira do deserto além do DUCTAC, um centro integrado de teatro e artes

Ainda em Dubai, o mais emblemático hotel moderno, o Burj Al Arab , implantado há 15 anos numa ilha artificial e centro de alguns dos maiores eventos mundiais por sua proposta absolutamente diferenciada que inclui também um imenso aquário para criar a ligação com o espaço exterior e à pouca distancia da Palm Island, complexo imobiliário implantado artificialmente em duas ilhas que formam o desenho de uma palmeira com hotéis, restaurantes e  residências com valor atual na faixa de US$ 10 milhões, propriedade de locais e estrangeiros que preferem aproveitar o destino para habitação, suas férias ou entretenimento .

Definitivamente pensar pequeno não faz parte da cultura local atual.

E tudo isso em cidades que têm apenas 30% da população local, os “emirati” para quem é oferecido de graça educação, assistência médica e habitação em projetos que podem ter casas com 2 a 4 quartos para satisfazer as demandas de seus moradores. Importante lembrar também que a população total das duas cidades soma menos de milhões de habitantes e que apenas 5% da água é natural e 95% é desalinizada. Talvez tenhamos que começar a pensar nessas soluções ante o cenário atual em São Paulo !

As cidades são absolutamente limpas, cuidadas, com nenhum grafite, arborizadas, apesar do clima hostil, e com uma proposta urbanística que privilegia a mobilidade e com uma arquitetura dominada pela grandiosidade e modernidade dos projetos. E mais importante, com uma população que respeita as coisas públicas e comunitárias e que, apesar das imensas diferenças culturais e religiosas, valoriza o convívio e a troca de ideias.

Os espaços públicos, incluindo aeroportos, metrô, centros de arte e áreas comerciais são modernos, cuidados, planejados e respiram modernidade, planejamento e ambição na sua realização.

É preciso respeitar e aprender quando se mescla de forma virtuosa pensamento econômico e político com empreendimentos comerciais, cultura, visão, globalização, informação e lazer. E acima de tudo a ambição de pensar a longo prazo e integrar desenvolvimento econômico, social e educacional com o bem estar da população.

E é surpreendente, intrigante e deve nos fazer pensar muito mais, o desenvolvimento de projetos de longo prazo, com propostas estratégicas que mesclam as melhores e maiores competências em cada área para criar algo focado no futuro. Coisas que definitivamente nos fazem muita falta no Brasil atual.

De forma humilde e respeitosa é preciso reconhecer que uma primeira visita à região não se esquece e pode mudar muito a sua forma de pensar.

Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza.

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