Metaconcorrência no varejo global

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Por Marcos Gouvêa de Souza*

Quando a concorrência não é local, nem restrita a alguns segmentos ou categorias, nem mesmo a diferentes formatos de lojas ou canais de vendas e relacionamento, ela é ampla, transversal e irrestrita e se transforma na metaconcorrência.

Se no passado discutíamos a transversalidade da concorrência que lojas, produtos e marcas sofriam a partir de formatos distintos, ou mesmo de outros canais como venda direta, televisão, catálogo ou, mais recentemente, a internet, agora e no futuro essa visão foi expandida pela eliminação das barreiras geográficas proporcionada pelo ambiente digital que gerou o neoconsumidor, aquele que é multicanal, digital e global.

E para sermos mais inclusivos, porque não o omniconsumidor ?

Estamos imersos nessa nova realidade que redesenha todo o cenário de negócios.

Um site de origem chinesa, recém operando no Brasil, teve vendas anualizadas de R$ 1 bilhão em 2014, com base na projeção de seu desempenho no terceiro trimestre do ano, de produtos produzidos fora do país, a maioria de baixo valor unitário, em boa parte de marcas desconhecidas ou sem marca.

Para efeito de comparação, de um total de 1,160 milhão de lojas operando no Brasil, existem apenas 90 grupos varejistas, redes de lojas ou e-commerce, nacionais ou internacionais, com vendas superiores a esse montante de R$ 1 bilhão. Isso é a real dimensão da metaconcorrência.

As barreiras estão eliminadas e seria insanidade imaginar a possibilidade de serem criadas em mercados capitalistas. E só os insanos podem pensar em criá-las. Essa é a nova realidade da qual não se pode fugir.
Não existe e não pode existir restrições, limitações, regulamentações que restrinjam a metaconcorrência, pois, caso contrário, o principal prejudicado é o consumidor-cidadão que, restrito em alternativas, vai pagar mais ou receber menos por seu poder aquisitivo. Ou buscar o refúgio da informalidade que a tudo e a todos enfrenta.

Mas o que não se pode imaginar é a metaconcorrência convivendo com limitações de infraestrutura, carga tributária asfixiante e insana em sua concepção, regulamentação e ordenamento trabalhista antiquado e oneroso ou mesmo com a burocracia imposta às empresas que operam no país. Esse é exatamente o cenário que impera no Brasil e que asfixia as empresas que aqui operam.

Como estamos vamos continuar periféricos ao novo cenário global redesenhado pela metaconcorrência.

Permanecendo o quadro atual, em pouco tempo, as empresas que realmente quiserem ser competitivas para atender o mercado brasileiro vão desenvolver operações a partir da Índia, China, Indonésia ou qualquer outro país que ofereça melhor ambiente de negócios e com todos os recursos que o ambiente digital e a metaconcorrência proporcionam.

E o que é mais asfixiante é essa sensação que estamos caminhando inexoravelmente para a irrelevância competitiva global enquanto ficamos debatendo temas políticos menores e sem uma proposta estratégica de longo prazo para o país.

É por conta exatamente disso que os mais de dois milhões de brasileiros, os mais conscientes e inconformados, foram às ruas gritando para que acordemos dessa letargia que nos aflige e possamos assumir o cenário da metaconcorrência e encontremos outros caminhos. Ou nos conformamos para sempre e buscamos outros espaços ou regiões para nos fazermos presentes e relevantes.

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouz00a@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza

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