Sonho grande e global

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Por Marcos Gouvêa de Souza*

Em seis das oito posições globais da Nestlé na Suíça, estão seis brasileiros. Fábio Coelho, em abril, foi nomeado VP Global da Google. Enderson Guimarães, desde final de 2014, é VP da Pepsico Global. Carlos Ghosn, outro brasileiro, nascido em Porto Velho, é presidente e diretor Executivo da Renault e da aliança Renault–Nissan. Abilio Diniz é acionista global do Carrefour, por enquanto segunda maior rede global de supermercados, além do Carrefour Brasil.

Jorge Paulo Lehman, Marcel Telles e Beto Sicupira têm assombrado o mundo empresarial por seu apetite em desenvolver negócios e sua competência incorporando novas e icônicas marcas globais ao seu conglomerado financeiro. E mais poderá vir proximamente. Eles colocaram o ovo de pé na gestão eficiente e focada em resultados de negócios globais e sua vocação para expansão é a marca registrada do grupo.

Isso para citar apenas alguns nomes brasileiros que atingiram notoriedade e reconhecimento como executivos, empresários e dirigentes de empresas que são referências por sua expressão, dimensão e atuação no cenário global. Muitos outros nomes poderiam ser citados e fazem ou farão parte dessa lista.

Em comum, eles têm o fato de serem brasileiros e terem, em parte, evoluído sua competência de gestão de negócios em um ambiente altamente competitivo, de constantes e bruscas alterações de mercado, normas e regulamentação, como é característico no País, e terem desenvolvido estratégias, conceitos, práticas e modelos de atuação que são, ao mesmo tempo flexíveis, ágeis, ambiciosos, pragmáticos e comprometidos com resultados. Só assim conseguiram sobreviver e crescer em cenários de permanente mudança.

Esse cenário tem sido o elemento dominante em tudo que tem acontecido no mundo, sub produto da velocidade de incorporação da tecnologia em tudo que acontece e nos rodeia, especialmente no ambiente de negócios, e absolutamente nada pode indicar uma alteração dessa que parece ser a perspectiva permanente à frente.

De fato, o mundo parece girar cada vez mais rápido e a proposta da música “Pare o mundo que eu quero descer”, parece fazer cada vez menos sentido.

Não deixa de ser interessante no contexto deste artigo lembrar a expressão. A única constante é a mudança do filósofo Heráclito de Efeso, considerado o pai da dialética, exatamente por ter sido ele reconhecido por seu desprendimento em relação ao poder e pelo desprezo que dedicava aos bens materiais, elementos que definitivamente não fazem parte do perfil desses empreendedores.

Essa habilidade de desenvolver negócios e alcançar resultados em ambientes em constante e permanente mutação parece ser a razão principal do crescente sucesso de executivos e dirigentes brasileiros do setor privado no cenário mundial.

O ambiente brasileiro de negócios é caracterizado por regulamentações restritivas de atuação, hiperburocratizado, insano tributariamente, com complexidade estrutural desafiadora, e sujeito cada vez mais à metacompetição, aquela que é global e transversal. Isso obriga os empresários e executivos atuando no país a competir com evidente desproporcionalidade de recursos e problemas.

Esse cenário adverso é medido por alguns índices globais de competitividade. Como o World Competitiveness Yearbook, catalogado pelo IMD – Institute for Management Development onde o Brasil ocupa as últimas posições na lista de 60 países. Ou no The Global Competitiveness Report do World Economic Forum onde somos 57º numa lista de 163 países.

Apesar desse quadro, porém, quando os executivos e dirigentes brasileiros são expostos a cenários mais estáveis, previsíveis, também competitivos, porém menos burocráticos e desorganizados, sua competência cresce e aparece e se tornam reconhecidos e valorizados.

Evidentemente essas constatações apenas se aplicam ao plano privado, onde a competição é aberta e ampla, diferente do setor público onde impera o protecionismo, os recursos endereçados, a generalizada ineficiência, o descontrole, a falta de planejamento e a visão imediatista e, usualmente, personalista, com raras e honrosas exceções. Ou alguém conhece administradores públicos brasileiros que se tornaram destaque no cenário global?

Enquanto persistir o cenário atual estaremos crescentemente exportando talentos, negócios, empregos e empresas brasileiras que irão procurar em outras regiões do mundo oportunidades de realizar o que aqui é sempre muito mais difícil e improvável. Quando não impossível.

Para criar e desenvolver sonho grande e global parece ser importante manter fortes conexões com o mercado brasileiro mas atuar, cada vez mais, a partir de exterior. Tem mais chance de dar certo mais rápido.

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza.

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