O setor privado deve ser o tertius

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Por Marcos Gouvêa de Souza*

– Tertius, em sentido coloquial, é a representação de uma terceira opção quando as duas primeiras não se viabilizam. E parece ser este o caminho destinado ao setor privado brasileiro num quadro onde Executivo e Legislativo, no âmbito Federal, não se entendem e o País vive um momento de perda de vitalidade e a caminho da prostração.

Num cenário onde a crise econômica-financeira é séria, precipitada por erros de avaliação e opções equivocadas cometidos no passado e, principalmente, pelo açodamento na tentativa de viabilizar uma reeleição conquistada com apenas um terço dos votos do eleitorado, num quadro agravado pelo cenário internacional desfavorável, o País está jogando fora conquistas relevantes nos muitos anos recentes de vento a favor.

A verdadeira e mais importante causa dos problemas que vivemos no momento são menos de natureza economico-financeira, até porque já passamos por momentos dramaticamente mais difíceis.

A variável sem controle no momento, causa maior da generalizada falta de confiança que grassa no País e compromete investimentos, emprego e renda, é o embate mesquinho entre congresso, partidos e o Governo Federal que paralisa o Brasil.

Ao sabor do varejinho politico envolvendo verbas, questões regionais, compromissos setoriais, alinhamentos ideológicos anacrônicos, o Brasil está parando.

Os elementos visíveis são o crescimento expressivo do desemprego, que já se aproxima do patamar de 8%, depois de termos passados vários anos na casa dos 4%, associados com a redução da massa salarial real que já está inferior ao valor de dois anos atrás, complementados com o menor índice histórico de confiança do consumidor que insiste em bater recordes negativos a cada mês.

Os reflexos estão na desvalorização da moeda, na fuga de capitais e na retirada do País das alternativas de investimento global. E na estagnação do investimento privado.

A paralisia se espalha enquanto se mantém o impasse entre congresso, partidos e o Governo Federal na definição de medidas sérias que sinalizem a retomada da capacidade do Governo Federal administrar o País, reassumir a liderança e o cargo para o qual foi eleito e o congresso cumprir seu papel constitucional.

É preciso reconhecer que empregos, famílias e a sociedade não têm todo o tempo do mundo para assistir esse comportamento mesquinho de forma confortável.

Antes que o quadro exploda nas ruas de forma mais contundente, colocando em risco outros e mais importantes valores democráticos, está mais do que na hora do setor privado assumir suas responsabilidades, arbitrando sobre o que faz mais sentido para o estratégico do País na medida que, verdadeiramente, é o responsável pela maior parte da riqueza gerada nos mercados interno e externo.

Anos recentes de bonança, de crescimento fácil e simples pela expansão de mercado, engessaram a capacidade de reagir do setor privado que se conformou no papel coadjuvante de participar do crescimento economico e delegou o pensar estratégico do Brasil.

O setor privado não pode mais se conformar em ser coadjuvante nessa tragicomédia que vem sendo encenada especialmente em Brasilia.

Ancorado em sua contribuição na geração e manutenção do emprego e nos impostos pagos, o setor privado brasileiro tem que fazer suas opções entre aquelas que são oferecidas na area tributária, fiscal, previdenciária e trabalhista e, principalmente, negociar, discutir e compor com as demais forças da nação.

O setor privado brasileiro precisa assumir o papel de tertius no desgastante embate que se trava no Planalto Central e definir suas opções precipitando, com senso de urgência, o encontro e a implementação de soluções que nos tire da inércia atual.

Não temos mais tempo para esperar.
Famílias estão perdendo o que conquistaram, pessoas estão sendo deixadas à margem do caminho por um cenário que depende cada vez mais de uma visão maior e de longo prazo e que conside o que é melhor para o País agora e no futuro.

Não dá mais para transigir, nem adiar. O setor privado brasileiro precisa assumir sua responsabilidade e agir para colocar um fim nas barganhas políticas que estão travando o País.

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza

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