Negócios que estão vendendo lenços na crise

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Por Marcos Gouvêa de Souza*

Os dados estão por aí e não deixam ninguém se iludir. O cenário é dramático para a maioria dos setores que estão chorando suas dificuldades, porém alguns poucos segmentos e negócios estão vendendo lenços, para usar a figura de imagem consagrada.

O Brasil deverá ter crescimento negativo do PIB em 2015 entre 2 e 3%, o consumo apresentará forte queda e o cenário para 2016 mostra perspectivas de continuidade do quadro atual, resultados associados à conjugação de uma crise econômico-financeira que não desata por conta do impasse político-institucional. Algo que poderia ser resolvido em poucos meses deverá durar muito mais do que seria preciso por conta das divergências no plano político.

Apesar das enormes dificuldades sendo vividas por muitos setores, alguns têm se mantido imunes ou até mesmo beneficiados pelo quadro geral.

Um desses setores é o dos atacarejos, expressão criada para representar o formato brasileiro de lojas de atuação híbrida entre atacado e varejo, derivado em parte dos “warehouse clubs” dos Estados Unidos. É oportuno resgatar essa origem, pois também lá o formato foi beneficiado, para não dizer consagrado, nas crises vividas pelo país no início dos anos 2000, após a explosão da bolha da internet e mais recentemente na crise 2007-2008.

A proposta do formato atacarejo é de uma loja simples, quase espartana, vendendo alimentos e não alimentos com preços mais baixos por conta de sua operação mais simples, despojada e de maior quantidade de itens por compra.

O formato tem sido o maior beneficiário da percepção de preços mais competitivos, em relação aos super e hipermercados e outros formatos abastecedores de alimentação e os líderes desse setor. Atacadão, Assaí, Roldão, Sam’s Club, Maxxi e outros têm crescido sua participação de mercado em todo o País.

Seu posicionamento de oferecer mais por menos em todas as categorias que operam está, inclusive, resgatando alguns hábitos do passado, quando famílias se compunham para compartilhar compras em conjunto, dividindo despesas e quantidades compradas para se beneficiarem das vantagens nos preços.

E os principais operadores, diferente de outros segmentos, continuam a expandir o formato para outros mercados e regiões, aproveitando o vento a favor gerado pela crise.

Outro segmento que não tem o que reclamar, ao contrário, agradece a crise, é o de farmácias e drogarias, especialmente para as grandes redes que operam no País.

Neste caso, a razão envolve motivações estruturais e outras de natureza contingencial.

No plano contingencial, existe um conceito tradicional de que na euforia o consumidor gasta mais consigo mesmo, com mais cuidados pessoais, como forma de comemorar e nas crises gasta mais consigo, para compensar, na ausência de maiores dispêndios com aquisições mais significativas.

No plano mais estratégico está o processo de consolidação que ocorre no setor com aumento do poder de compra dessas organizações e o avanço de sua competência na gestão de produtos, lojas, programas de fidelidade, logística e, principalmente, na ampliação das linhas de não medicamentos, que contribui significativamente mais para a rentabilidade média.

Da mesma forma, os restaurantes mais populares, os chamados kilos, têm também se beneficiado do generalizado “downgrade” que acontece no segmento de alimentação fora do lar, com os consumidores migrando de alternativas de preços maiores para outros com preços mais competitivos – dos restaurantes mais sofisticados para aqueles mais casuais e simples, desses para o fast food e destes para os kilos.

Como forma de busca de equilíbrio, as principais redes que operam no setor têm criado novas alternativas de produtos “combos” que contribuem para valorizar a oferta e criar novas possibilidades de retenção de clientes e, se possível, captação de novos consumidores com essas propostas.

Mas também é importante lembrar que algumas regiões geográficas estão se beneficiando do quadro geral, em especial todas aquelas ligadas à agroindústria de exportação, privilegiada pela forte variação cambial que, independente da redução global dos preços das commodities, ampliou a competitividade dos produtos brasileiros. Isso é particularmente verdadeiro na região Centro-oeste do Brasil e em diversos bolsões onde o setor está mais presente.

E como habitualmente acontece, o setor financeiro também tem muito pouco para reclamar, para além da atitude permanente de cautela e preocupação com o futuro, pois os resultados do seu desempenho expresso nos balanços publicados, têm crescido de forma consistente. Em parte por sua própria competência e também pela conjugação de fatores externos envolvendo taxas de juros e ação de mercado que fazem com que o setor ganhe na euforia e também na crise.

Dirigentes multitarefa

Em excelente artigo publicado no portal Mercado & Consumo da última sexta-feira, o diretor da GS&AGR, Jean Paul Rebetez, braço de consultoria do Grupo GS&, produz uma reflexão interessante sobre a atitude que deveria motivar os dirigentes de negócios no Brasil atual, propondo que esses dediquem mais tempo às alternativas que envolvam a busca pragmática de soluções para reversão do desempenho de seus negócios.

Sem perder muito tempo com “mimimis”, como ele mesmo prega, e sem mexer uma só vírgula em seu oportuno artigo, só deveríamos nos lembrar que foi um processo recente de delegação de responsabilidade para o Governo e o Congresso sobre o futuro do País, que nos trouxe ao quadro que hoje vivenciamos.

Os dirigentes empresariais brasileiros, focados em tirar o melhor proveito possível dos anos recentes de forte crescimento econômico, delegaram a responsabilidade de pensar o Brasil do futuro aos dirigentes públicos e aos políticos. E o resultado é o que aí está.

Numa era de constantes mudanças e inovações como vive o mundo, de multicanal, multinegócio, multitela e muito mais, os dirigentes devem e precisam ser multitarefa.
Ao mesmo tempo em que cuidam com a maior competência estratégica e tática possível de seus negócios, precisam dedicar tempo, atenção e foco nas questões que envolvem o País, caso contrário, podem ver anos de investimento e trabalho se perderem nas crises geradas por essa omissão. Quando sobrevivem.

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza. Siga-o no Twitter: @marcosgouveaGS

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