O impeachment do Papai Noel

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Por Marcos Gouvêa de Souza*

Numa surpreendente e bem articulada manobra, Congresso e Governo Federal se uniram para decretar o impeachment do Papai Noel em 2015, deixando o período de festas deste ano muito menos promocional e menos alegre.


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A articulação envolveu a conjugação de crescente desemprego, que deverá proximamente superar os 10% tomando como base a nova base expandida de coleta estruturada pelo PNAD com 3.500 cidades do País. Envolveu também o aumento da inflação, superando os 10%, puxada principalmente pela alimentação de forma ampla, no lar e fora do lar.

Na mesma linha contribuinte para o impeachment do Papai Noel e decretação do período de cinzas em pleno final de ano, conseguiram articular para que inadimplência mostrasse níveis crescentes, assustando bancos e financeiras, usualmente já predispostos à extrema cautela e que não precisam de estímulos adicionais para tornar o crédito mais seletivo e difícil.

Outro fator decisivo para criar o desestímulo perfeito tem sido a redução da massa salarial que, em termos reais, caiu R$ 2 bilhões em relação ao mesmo período no ano anterior.

Para coroar o cenário perfeito ao desencanto e impedimento do Papai Noel, o Congresso e o Executivo Federal têm ministrado overdoses de intrigas e conspirações, onde se discute, barganha e se oferece tudo, menos propostas consistentes para revitalização do mercado e da economia.

Ao contrário, se esmeram em passar desesperança e falta de visão, contribuindo de forma decisiva para jogar a confiança de empresários e consumidores aos menores níveis históricos já alcançados, impactando diretamente investimento e a geração de emprego futuro.

Em todos os setores orientados ao mercado interno o clima é de constante preocupação com a indefinição e aprofundamento do quadro existente.

Salvam-se as empresas cuja atividade permitiu reorientação mais rápida para redirecionar esforços para aproveitarem a nova realidade cambial para investir no mercado externo, elemento que hoje domina as estratégias das pequenas, médias e grandes empresas que se preparam também para transferir empregos para o mercado externo.

Para dar o tom certo na dramaticidade do momento uma carta, no melhor estilo sertanejo ou eventual tema para um fado, foi vazada, o que seguramente deve ter feito o bom velhinho ir às lágrimas convencido que, ao menos, não é o único traído nas circunstâncias atuais.

Para completar o cenário pouco ou nada auspicioso, o momento contou também com a colaboração de alguns prefeitos que, como em São Paulo, nada fizeram para decorar e alegrar a cidade, como forma de promoção do período das festas de final de ano, deixando todo o ambiente mais sisudo, triste e introspectivo.

Não surpreende que o tom dominante das conversas e discussões neste momento sejam as alternativas pelas quais o País possa eliminar aqueles que contribuem para a dramaticidade do cenário, revertendo o péssimo humor dominante e exacerbando o sentimento de que não mais é possível conviver com essa realidade.

Especialmente porque as condições estruturais do país continuam a estimular um pensamento mais ambicioso para a sociedade, momentaneamente refém da inconsequência dos que misturam funções, deveres e responsabilidades e priorizam suas picuinhas pessoais. Não pode existir espaço democrático para os que agem dessa forma.

Especialmente a sociedade civil precisa se organizar e coordenar seus esforços para que possamos, o mais rápido possível, romper essa inércia e travamento gerados pela inconsequência daqueles para os quais delegamos a responsabilidade de organizar o País.

No fundo, é preciso reconhecer que foi um ato infeliz e também inconsequente permitir que os que aí estão estivessem com tanto poder para o mal.

Por enquanto, resignemo-nos ao nosso pior Natal das últimas e das próximas décadas. O Natal do impeachment do Papai Noel. O bom velhinho merece estar bem acompanhado no futuro próximo.

Com menos festas, alegria e comemoração vamos aproveitar o período para muita reflexão.

Sobre como romper o impasse, destravar o País e, principalmente, talvez suprema angústia do momento, sermos inspirados pela Argentina, e buscarmos alternativas sobre como evitar que isso torne novamente a acontecer.

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza. Siga-o no Twitter: @marcosgouveaGS

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