O mercado do Peru

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Por Marcos Gouvêa de Souza*

No Peru, a população de 30,4 milhões representa 15% da população brasileira. Com idade média de 27,3 anos, é uma das mais baixas do mundo e abaixo da idade média brasileira e mundial, que é perto de 30 anos.

Na capital Lima vive um terço da população do país e o PIB  no conceito Paridade de Poder de Compra (PPP), representa 12% do mesmo indicador do Brasil.

O PIB per capita em valor absoluto é de US$ 6541, que representa 57,5% do mesmo índice no Brasil.

Ou seja, o Peru é um país jovem, com baixo desemprego de 6,5%, índice de concentração urbana de perto de 79%, vivendo o seu período de bônus demográfico, economicamente mais pobre do que o Brasil, porém, nos três últimos anos o varejo cresceu em media 5%, enquanto a economia, medida pela crescimento do PIB, teve evolução media de 3,8%.

O varejo chileno descobriu o potencial do Peru antes do que qualquer outro país e adquiriu alguns dos principais operadores locais através de Cencosud, Falabella e outros, levando para lá suas marcas e conceitos, como Saga-Falabella, Tottus, Sodimac, Viajes Falabella, banco e  seguros, competindo com grupos locais como Plaza Vea e outros.

É um varejo ainda pouco concentrado, pois os cinco maiores supermercados detém uma participação total de apenas 10,4% do total de mercado (no Brasil está em 44%)  o que sinaliza um nível de competitividade muito menor do que aquele existente no Brasil.

O país está às vésperas das eleições presidenciais, já em seu segundo turno, com dois candidatos com plataformas que se aproximam em suas propostas econômicas, apesar de visões bem distintas sobre a forma de implementação, mas que sinalizam a continuidade do ciclo de expansão.

O crescimento econômico dos últimos anos foi prejudicado pela redução dos preços globais das commodities, principal pauta de exportações do país.

Mas existe generalizado consenso que o país continuará a crescer economicamente acima da media latino-americana e o consumo e o varejo continuarão a puxar o crescimento, confirmando o potencial de evolução de negócios na área que tem merecido novos investimentos na  expansão das redes de lojas, shoppings centers e franquias.

Esse potencial tem atraído as principais marcas globais em todas as áreas de varejo e praticamente todas as marcas norte-americanas dos setores de vestuário, calçados, artigos para o lar e food service estão presentes no país através de franquias e licenças, operadas diretamente ou por grupos locais ou chilenos.

Do Brasil, estão presentes apenas poucas marcas na área de franquias como Carmen Steffens, Azaleia, Puket e Melissa, além da Natura, com vendas diretas e Smart Fit, na área de academias de ginástica. Boticário esteve presente no passado e por problemas com o franqueado deixou o país.

Chama a atenção que em áreas onde o Brasil é particularmente forte como café, frango e carne as marcas brasileiras não estejam presentes, abrindo espaço para outras redes, como a colombiana Juan Valdez que opera uma rede de cafeterias por lá.

As marcas peruanas têm se mostrado particularmente fortes na área de alimentação, especialmente nos restaurantes especializados em frutos do mar, sendo alguns deles operados no Brasil, além da rede peruana de franquias de cosméticos Belcorp.

O capítulo restaurantes peruanos tem se tornado um elemento à parte na moderna gastronomia mundial, sendo reconhecida a rede Astrid y Gaston, exportada para outros países, além do La Mar e a rede mais popular Tanta. As marcas viraram ícones em tudo que diz respeito à inovação, qualidade e nível de serviços.

O modelo chileno de varejo, apoiado fortemente em vendas através de cartão de crédito está implantado no Peru e se repete por lá, em boa parte, o cenário vivido no Chile onde as redes varejistas dominam o negócio de cartões e o modelo está fortemente apoiado em menores margens comerciais e elevadas margens no financiamento aos consumidores.

Para uma inflação em torno de 3,6% ao ano, o financiamento de produtos tem taxas de juros superiores a 70%, permitindo que os varejistas tenham grande rentabilidade nesses financiamentos, modelo que ocorreu no passado no Brasil quando o principal operador de crédito no varejo  era o próprio varejo.

O Peru é um desses países que deveria estar no radar dos produtores de bens de consumo do Brasil, das marcas, das empresas de serviços e dos varejistas e, principalmente, das redes de franquias, pelo potencial de crescimento, economia aberta e menos competitiva e pela emergência de uma nova mentalidade dos empresários brasileiros em busca de oportunidades em mercados externos.

É preciso rever a opção histórica de concentração de atenção no mercado interno. Os tempos são outros e o passado recente, no consumo e no varejo, não volta mais. Ao menos por um bom tempo.

É tempo de pensar diferente.

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza. Siga-o no Twitter: @marcosgouveaGS

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