Pensar diferente

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different concepts - red apple between green apples

Por Marcos Gouvêa de Souza*

É tempo de mudarmos nossa forma de pensar e agir no que diz respeito às responsabilidades do setor empresarial com o futuro do País. O tema é recorrente, mas relevante o suficiente para voltarmos a ele.

A representação empresarial no Brasil é fragmentada, dispersa, incoerente e focada prioritariamente em questões paroquiais e de curto prazo. E não assume o papel que em outros países é exercido de forma estratégica e intensa pelo setor privado.

Herança de um modelo sindical obsoleto e antiquado, a representação empresarial formal e oficial no Brasil foi historicamente cooptada pelas dotações legais estabelecidas que comprometem sua independência e atualidade.

Ainda que em alguns casos e em condições excepcionais, algumas entidades tenham mostrado independência e espírito combativo, no conjunto de sua atuação o que mais se percebe é uma visão política cartorial e comprometida apenas com o momento.

O resultado dessa incapacidade de representar de forma visionária, moderna, independente e que priorize os grandes temas nacionais, multiplica-se com as entidades por segmentos, sub-segmentos, regiões, sindicatos, federações e confederações e, na maioria dos casos, com a falta de representatividade ampla, capacidade de atuar politicamente em alto nível e estrutura e organização que as tornem relevantes no contexto nacional.

E o pior é que a fragmentação traz embates políticos e ideológicos menores, consumindo tempo, foco e visão de quem não tem tempo para perder: os empresários e líderes autênticos que se voltam exclusivamente para cuidar de seus próprios negócios e se afastam da política nacional, não necessariamente partidária.

Esse quadro se agravou no período da bonança de 2004 a 2013 e consumiu toda a atenção e tempo desses líderes que ficaram fixados em buscar tirar o melhor proveito possível do crescimento e amadurecimento de mercado. E o fizeram com rara competência mas, ao mesmo tempo, descuidaram dos macro temas nacionais e acabaram contribuindo para uma maior fragmentação com novas entidades e sindicatos sendo criados.

O Brasil carece de uma visão e uma voz únicas, na defesa dos interesses privados, com postura, estrutura e proposta que integre e represente os diversos setores empresarias na defesa dos grandes e estratégicos temas nacionais.

Muito provavelmente esse enunciado merecerá endosso da maioria dos empresários e dirigentes de empresas no Brasil. E mais provavelmente ainda nada acontecerá pois estão todos agora comprometidos em salvar seus negócios asfixiados pelos resultados dos anos recentes de galopante incompetência governamental temperada com a também conivente atuação do Congresso. O País ficou à deriva pela incapacidade de governar, mesclada com a incompetência em legislar. Estimuladas pela omissão empresarial.

Quando o mercado era positivo não havia tempo a perder e tinha que aproveitar. Quando mergulhamos na recessão os empresários só têm olhos para o dia a dia e o caixa pois precisa o negócio salvar.

E quando vamos ter tempo para o País?

É preciso aproveitar o drama que temos vivido para nos comprometermos com uma outra atitude e pensamento que conspire a favor do longo prazo do País. Exatamente como fazemos em nossas empresas. Como diz o dito popular, não existe vento a favor para quem não sabe onde quer chegar.

Devemos começar a agir agora para darmos o larga num projeto de país.

Chega de fragmentação da representação empresarial e vamos integrar o que possa e mereça ser integrado e que tenha visão e representatividade para merecer ser envolvida. Vamos desprezar as empresas de dono travestidas de entidades que só enganam os incautos. E vamos nos afastar das representações sindicais formais e oficiais que não cresceram e amadureceram incorporando apenas as que tenham legitimidade conquistadas pela visão estratégica e de longo prazo.

Que os anos recentes de recessão e desgoverno possam ter servido para precipitar essa visão estratégica e de compromisso de longo prazo com o Brasil.

Se isso acontecer e encontrarmos um caminho que una e integre quem tem compromisso com uma visão de país e que se coloque acima das questiúnculas pontuais, regionais ou setoriais, talvez tenha valido o sofrimento e decepção.

Mas não vamos nos esquecer que só depende de nós a opção.

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza. Siga-o no Twitter: @marcosgouveaGS

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