De volta para o futuro

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Por Marcos Gouvêa de Souza*

Tem que ter cautela,  até por que o desastre foi muito grande. As consequências estão todas por aí e o País vai demorar para recuperar. O emprego formal deverá ainda piorar e as correções salariais muito mais cautelosas ainda vão impor a redução da massa salarial.

Mas alguns sinais vitais começam a mostrar perspectivas mais animadoras à frente, puxadas pela recuperação da confiança do consumidor e de setores empresariais. E pelo sentimento coletivo que parou de piorar e, em algumas áreas, já se notam leves movimentos de retomada, palavra que será exaustivamente usada nos próximos meses.

E o Governo começa a mostrar que sua proposta, uma ponte para o futuro, lançada no final do ano passado, e que aglutinou diferentes segmentos da sociedade, está sendo trabalhada como foi concebida, especialmente no plano econômico-financeiro. A recente evolução no encaminhamento da PEC do teto dos gastos mostra isso. Mas é uma pálida, ainda que fundamental, movimentação na direção correta.

É preciso levar adiante essa limitação, trabalhar na  revisão do tema previdenciário, na modernização trabalhista, na reconfiguração tributária, na revisão estrutural do tamanho do Estado e seu âmbito de atuação e na simplificação geral e irrestrita de tudo que envolva o poder público. Definitivamente, não é pouco e nem ato apenas de vontade. E o tempo conspira contra.

É preciso conquistar a confiança e ela só virá com resultados tangíveis e com visão de futuro.

Mas a mensagem é cada vez mais clara. O Estado-polvo, paquidérmico, assistencialista, instrumentado e tocado por políticos com visão estreita e superada comprometidos com o passado, está morto.

E nada mais claro nessa percepção do que a mensagem implícita em algumas das vitórias mais eloquentes nas eleições municipais, onde se destaca o ocorrido em São Paulo.

A clara perspectiva de baixa da inflação irá viabilizar a redução das taxas de juros, sinalizando um outro cenário com boas possibilidades de estimular a propensão ao consumo, ainda que em um cenário de generalizada cautela por força da menor massa salarial. Estamos nos mesmo patamares reais de quatro anos atrás nesse quesito.

São todos raciocínios de curto prazo, mas são os possíveis no momento. E esse é o maior problema: voltarmos novamente a pensar e administrar o imediatismo deixando de lado a visão do futuro.

Se tem algo para o qual a recente e dramática crise serviu, foi mostrar que as questões que envolvem o País não podem e não devem ser delegadas  apenas ao Governo, por mais que ele possa representar a Sociedade como um todo.

Foi uma combinação perniciosa de estímulos pontuais, setoriais e regionais  comprando e cooptando apoios e adesões no campo politico, financeiro e empresarial à serviço de uma proposta ideológica partidária, que nos levaram para o precipício, de onde tentamos agora sair.

No processo de curto prazo de viabilizar essa retomada, é preciso não perder de vista que não se pode delegar o indelegável e que cabe ao setor empresarial estruturar-se e manter-se atento às questões que dizem respeito ao

País em sua componente mais estratégica.

A obsolescência e fragmentação da representação setorial e regional do setor privado  foi cúmplice do caos que atingiu o Brasil. E isso tem que ser revisto e repensado agora para que não mais se repita.

A multiplicação de entidades, mesclada com um modelo esclerosado, legado dos modelos sindicais vigentes em outra realidade econômica, tecnológica e cultural, são elementos determinantes dessa situação.

Deixar-se envolver pela simples retomada pode nos afastar da visão do futuro que deve estar presente em tudo que  pensemos agora. Especialmente quando as feridas ainda estão abertas e estamos mais sensíveis para repensar o que se passou.

De volta para o futuro significa retomar projetos, sonhos, visões e oportunidades sem se deixar envolver pelo messianismos de soluções mágicas ao sabor do acaso no curto prazo.

Quem tem um mínimo de bom senso e responsabilidade com a visão mais ampla de cenários, deve refletir e agir para que esse recomeço aconteça num outro contexto e realidade.

Há muito mais a fazer do que se colocar na corrente dos que estão aplaudindo os primeiros sinais positivos. E que merecem ser aplaudidos.

O mais importante agora é ir fundo para discutir, buscar caminhos e, principalmente, agir, para voltarmos ao futuro. As próximas gerações e o legado que  recebemos merecem isso.

*Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza. Siga-o no Twitter: @marcosgouveaGS

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