Para presidente do Boticário, marcas não devem defender causas só para agradar

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Mundo real não é “família Doriana”; há pais separados e casais gays

As empresas têm um compromisso de se posicionar sobre o mundo, e não pode ser só da boca para fora, diz Artur Grymbaum, presidente do Grupo Boticário.

“É muito difícil você querer não se posicionar em alguma coisa que sua marca precise falar. Ou fazer a família Doriana, em que todo mundo está feliz o tempo inteiro.”

Ele se refere aos antigos comerciais de margarina, em que as famílias eram sempre retratadas de um jeito padronizado (pai, mãe e filhos alegres e sem crise).

Os comerciais de O Boticário têm inovado, com famílias alternativas. “Temos abordado nas nossas campanhas vários temas que falam desse mundo real. O que é isso hoje? É um Natal com pais separados e tem as crianças no meio. E não precisa ser um tema árido. Pode tratar com carinho, com emoção.”

Acho que há um papel das marcas, mas tem de ser uma coisa verdadeira. Não dá para sair fazendo qualquer coisa para agradar consumidor.

Comercial gay

No Dia dos Namorados de 2015, O Boticário fez um comercial com casais gays. Houve críticas e apoios nas redes sociais. Grynbaum diz que não se arrependeu em nenhum momento.

“Não fizemos nada de errado. Recebi vários relatos de pessoas que me escreveram falando como aquilo foi importante na mudança da vida delas. Então, pra mim atingiu todos os objetivos.”

Sempre que pudermos trazer um tema da sociedade moderna para ser discutido e que passe a ser encarado com maior normalidade, nós vamos fazer.

“Dilma matou a esperança do brasileiro; Temer a ressuscita”

O presidente do Grupo Boticário apoiou a troca do governo federal. Ao definir em uma frase o que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) representou para o país, disse que “foi um governo que matou as esperanças dos brasileiros.”

Sobre o presidente Michel Temer afirma que “está ressuscitando a esperança”.

Artur Grynbaum defende a reforma da Previdência (que aumenta o prazo para os trabalhadores se aposentarem) e também é a favor da limitação de gastos públicos (que prevê redução de despesas com saúde e educação).

Os políticos têm de se dar conta da importância de ajudar o país a dar os passos de que necessita. Previdência e teto de gastos são fundamentais para que a gente possa engrenar numa nova perspectiva.

Ele é otimista em relação aos próximos dez anos. “Passado isso, vejo que somos um país que volta a crescer e trazer qualidade de vida para muitas pessoas. Não vai crescer em proporções enormes, mas será um país que retoma a esperança.”

Perfume não é supérfluo, é cesta básica de todo mundo

Artur Grynbaum discorda da ideia de que a crise econômica possa afetar mais o setor de cosméticos por serem considerados supérfluos.

“Produtos de perfumaria não são supérfluos, e estão na cesta básica de qualquer um.” As pessoas não conseguem trabalhar sem desodorante, batom, xampu, perfume, argumenta.

“O cliente pode até escolher diferentes faixas de preço, mas dificilmente vai deixar de usar”, diz Grynbaum.

Para ele, “a crise afeta todos os setores. O ritmo de crescimento arrefeceu um pouco, porém, continuamos crescendo”.

Quando o consumidor experimenta um produto de melhor qualidade é muito difícil andar para trás.

O Grupo Boticário é assim

  • Quatro marcas

    O Boticário (franquias de lojas físicas), Eudora (venda porta a porta), quem disse, berenice? (jovem e mais popular) e The Beauty Box (lojas multimarcas de produtos mais caros)

  • Lojas

    4.000

  • Funcionários

    7.000 colaboradores diretos e mais de 25.000 indiretos na rede franqueada

  • Faturamento em 2015

    R$ 10,1 bilhões

  • Cidades atendidas

    O grupo tem lojas em 1.750 municípios

  • Países em que atua

    Brasil, EUA, Japão, Portugal, Colômbia, Paraguai, Venezuela, Angola e Moçambique

  • Total de produtos

    Só na marca O Boticário, são 1.100 itens de perfumaria, maquiagem e cuidados pessoais

  • Ano de fundação

    1977

Disfarçado nas lojas para entender os desejos dos clientes

Pode ser até que você já tenha esbarrado no presidente do grupo dentro de alguma loja de O Boticário por aí. Artur Grynbaum gosta de andar incógnito para tentar entender do que as pessoas precisam.

“Eu adoro [ir para lojas]. Vou lá, fico olhando, observando atendimento, como o consumidor se dirige aos produtos. Raramente me identifico, mas vou lá perguntar por que gostou, por que não gostou. Nossa política é pé na rua.  Daí vem o entendimento do consumidor.  A vida acontece do lado de fora do ar-condicionado.”

Ele afirma que várias decisões foram tomadas a partir dessa observação do consumidor e do contato com os franqueados de sua rede. Uma vez decidiu o aroma de um novo produto com base na experiência das vendedoras.

Não basta faculdade para carreira vitoriosa

Grymbaum dá algumas dicas de carreira. Uma delas é buscar conhecimento sempre, mesmo depois de formado.

“Se achar que, porque fez faculdade, já cumpriu a parte preparatória que lhe cabe, está enganado. Ele e mais milhões fizeram isso. Como ele busca conhecimentos adicionais? O jovem tem de buscar o autodesenvolvimento.”

Atitude também é fundamental para ele. “Tem de ir lá e realizar as coisas, não pode esperar tudo mastigado. Precisa de apetite para correr risco, mostrar o que pode fazer, e não simplesmente esperar uma escada para subir rapidamente.”

Tive casos de alguém que entrou e, em seis meses, veio falar: ‘ainda não fui promovido’. Oi??? Me conta antes o que você fez para ser promovido!

Já pensou ser sócio do cunhado?

Dizem que ter um sócio é difícil. Agora, imagine se seu sócio é também seu cunhado! As piadas com cunhados folgados são famosas no Brasil, mas Artur Grynbaum garante que não há problema nenhum na sua vida por causa disso.

Ele é sócio de seu cunhado Miguel Krigsner, fundador de O Boticário e hoje presidente do conselho. “É um negócio inusitado porque foi uma sociedade entre cunhados que deu certo. Para nós, é supertranquilo”, diz, sorrindo.

“Sempre nos demos muito bem, desde que ele começou a namorar minha irmã. A gente brincava que um dia iríamos trabalhar juntos. E hoje estamos aí.”

“Miguel sempre gostou muito de produto, de fábrica. Eu adorava finanças e venda. Então, a coisa se fechava. Construímos uma relação fantástica, com vários papéis. Somos cunhados, mas praticamente irmãos, somos melhores amigos, sócios.”

Fonte: UOL

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