Acesse, colabore, compartilhe! Viva a nova economia!

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As grandes revoluções acontecem quando elas alteram a nossa rotina e não nos damos conta de como conseguíamos fazer aquilo de outra forma. O poder de acesso que todos nós conquistamos quando nos tornamos conectados 24 horas por dia, por meio de nossos smartphones, está permitindo o desenvolvimento de novos modelos de negócios baseados no “peer-to-peer”, ou no contato direto entre quem oferece e quem quer um produto ou serviço.

A economia colaborativa ou compartilhada, ou qualquer outro nome que você entenda ser mais apropriado, está promovendo esta enorme mudança nas relações de consumo em todo o mundo e em diversos segmentos.

Entretenimento, transporte, hospedagem e o próprio varejo foram os primeiros setores a serem impactados. Os grandes expoentes dessa nova economia são empresas como o Uber, Spotify e Airbnb, mas não fica restrito a elas. Estima-se que este mercado já movimente cerca de U$15 bilhões e que em 2025 este volume chegará a U$335 bilhões.

A Airbnb, maior empresa de aluguéis de temporada do mundo, hospedou 155 milhões de pessoas ao redor do planeta, um número 22% superior a tradicional rede de hotéis Hilton. Seu fundador, Joe Gebbia, reforça que “quanto mais pessoas utilizam o serviço e registram sua experiência na rede, mais valiosa e qualificada a comunidade se torna”. Isso evidencia um dos pilares da economia colaborativa:

Confiança

Confiamos na opinião de pessoas que não conhecemos, confiamos em nos hospedar em casas de pessoas que nunca vimos e entramos no carro de um estranho para ele nos levar ao nosso destino. Estranhos? Nem tanto. As avaliações daqueles que utilizaram os serviços são fundamentais para o fortalecimento e crescimento da economia colaborativa.

A busca pela conveniência, pela melhor relação custo-benefício e o senso de comunidade, completam os pilares desta revolução que é impulsionada pela facilidade de acesso e de escala permitida pela conexão mobile.

Fim dos intermediários

Quando foi a última vez que você ligou para uma cooperativa de táxi para fazer uma corrida?

Quando o acesso ao que se deseja fica facilitado, os intermediários ficam sob questionamento. Agências de turismo, revendedoras de produtos de beleza, locadoras de automóveis. O corretor de imóveis tem menos informações sobre o imóvel dos meus sonhos do que eu!

Será que ainda fará sentido existir intermediários que não gerem valor no seu serviço em um mundo cada vez mais rápido, acessível e conveniente?

Sai da minha frente que eu vou passar!

A questão da posse é colocada em cheque

A mudança nas atitudes e nos valores dos consumidores, impulsionam esse novo modelo. Os millennials, sempre eles, não estão tão preocupados em possuir algo em seu nome e sim, com a necessidade crescente de ter uma boa experiência.

Dois exemplos ilustram o dilema da POSSE neste momento:

No Spotify, onde você paga uma mensalidade fixa para ouvir “qualquer música”, a cantora Adele, disponibilizou apenas uma música do seu último trabalho. A alegação da cantora foi a que serviços de streaming tornam o consumo da música mais descartável. Ela não deixa de ter razão, mas isso é ruim? Para que eu preciso comprar uma música, ter ela para só mim, se eu posso ouvir quando eu tiver vontade, em qualquer lugar? Eu não preciso ser dono da música, não preciso ter LP’s, CD’s ou mp3 para ouvi-la e apreciar a artista e sua música. Os serviços de streaming, como Spotify, se tornaram grandes facilitadores, ou em outras palavras, são canais de acesso para ouvir sua música preferida, conhecer novos artistas, além de estimular o senso de comunidade através das preferências musicais dos seus amigos.

Outro exemplo vem da Alemanha, onde a BMW entendeu que os millennials não estão muito preocupados em ter um carro, mas ainda têm problemas de mobilidade. A solução encontrada foi desenvolver o DriveNow, modelo de aluguel de carros por hora baseado no Zipcar. Em suma, a partir de um simples cadastro, com as devidas obrigações legais, o cliente identifica a partir do aplicativo, onde está um dos modelos da BMW disponível na rua, faz a reserva por hora de uso. Ao aproximar seu cartão de identificação, o motorista entra na BMW e sai dirigindo. Simples e fácil. Combustível e seguro já incluídos na taxa. Praticamente um test drive pago, onde o cliente usa uma BMW, gasta pouco e tem uma experiência com a marca. Infelizmente esse serviço ainda é restrito à Alemanha e poucos países europeus. Porém, a empresa aposta que, quando esse millennial tiver condições financeiras e desejo por um carro de luxo, com certeza irá considerar a BMW.  A marca alemã é uma das grandes corporações que entenderam que mesmo empresas conservadoras e cuidadosas com sua marca, devem se aproximar do consumidor através da experiência colaborativa.

Impacto no varejo

Como os consumidores estão cada vez mais valorizando a experiência em detrimento à posse, o varejo tem a oportunidade de se tornar também um fornecedor de experiências que podem acontecer não só dentro de suas lojas, mas em todas as oportunidades de contato com seu consumidor – isto é em qualquer lugar e momento.

A recessão que estamos vivendo hoje no Brasil estimula o fortalecimento da economia colaborativa no varejo. O consumidor brasileiro está cada vez mais em busca de conveniência nas suas relações de consumo, já conta com uma grande facilidade de acesso e, mais do que nunca, procura por uma boa oferta, onde o “menos é mais”. Cenário semelhante aconteceu no mercado americano onde, depois da crise de 2008, 78% dos consumidores passaram a acreditar que este modelo de negócio diminui o desperdício.

Diferentes propostas de unir os consumidores para boas oportunidades surgiram nos últimos anos:

Yerdle – promove a troca de produtos entre as pessoas, similar ao Enjooei aqui no Brasil.

Spinlister – consumidores são estimulados a alugar bicicletas, esquis, pranchas de surf e equipamentos de esportes diretamente para outros consumidores (Decathlon que se cuide!).

Kidizen – pais compram e vendem produtos infantis como roupas, brinquedos, sapatos (que muitas das vezes nem são usados pelas crianças).

Rocksbox – clube de aluguel de de jóias.

A iniciativa mais completa envolvendo economia colaborativa no varejo brasileiro é o House of All. O local reúne o House of Work, um coworking; House of Food, para as pessoas se juntarem para cozinhar e comer; House of Learning, para estimular o aprendizado; e a House of Bubbles, um bar-lavanderia, onde funciona a Roupateca, uma espécie de “Netflix para roupas”, onde o cliente paga uma mensalidade e pode utilizar as roupas disponíveis na casa.

Os desafios

Como todo novo movimento de consumo, a economia colaborativa tem seus desafios a serem superados. Em diversos mercados já estão evoluindo a discussão da regulamentação destas ofertas, da questão tributária e da própria relação trabalhista: motoristas do Uber podem ser considerados funcionários do aplicativo?

A qualidade – tanto do serviço prestado como do produto transacionado – é questão chave nesse modelo. Quem anda muito de Uber sabe que, apesar da água e da oferta de balas, não é todo motorista que presta o melhor dos serviços. Muitos são “neo-motoristas” não conhecem os melhores caminhos mesmo com o suporte do Waze.

O fortalecimento da economia colaborativa é um passo adiante está sendo dado e uma coisa é certa: não retrocederemos. Ou as empresas e marcas se adaptam a esta nova realidade ou o mercado fará um  “update forçado no seu sistema operacional”, decretando a sua morte.

 

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