Como a revolução digital no varejo e consumo poderá afetar a evolução das cidades

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A história das cidades está intimamente ligada à história do comércio. Desde as primeiras civilizações, o centro da cidade, e, principalmente, sua área comercial, sempre foi o grande representante cultural e social da cidade, um coração pulsante das atividades de compra e venda de produtos e serviços, criando um volume incrível de pessoas entre idas e vindas, que aumentaram com o tempo, à medida que as cidades (e seus centros comerciais) se tornavam maiores e mais importantes.

Se, em outros tempos, as áreas mais próximas aos centros da cidade poderiam ser as mais valiosas, no último século, com o avanço das cidades em termos de tecnologias e oportunidades, e fatores como o caos urbano, stress e trânsito, acabaram por fazer surgir os centros “secundários”, mais próximos das zonas residenciais, que, por vezes exclusivas, se tornavam ainda mais valiosas. O sonho de morar e trabalhar de maneira mais próxima traria efeitos ruins ao centro.

O comércio ainda passaria por outras ondas, como a expansão dos shoppings nas últimas décadas, que também causaram impactos em cidades de menor porte, onde grandes redes e marcas migraram das ruas e avenidas para esse tipo de estabelecimento buscando oferecer mais conforto aos seus clientes, e até mesmo, mais segurança.

Muitas cidades de grande porte buscam hoje alternativas à revitalização dos centros, buscando agregar questões como serviços ou espaços culturais, de olho em impulsionar ou atrair novos “moradores”. Sem pessoas, o comércio não sobrevive.

E se não bastasse isso, os centros começam a sentir, assim como toda a cadeia de varejo, o impacto da revolução digital.

Aparentemente, o muro do nosso concorrente, hoje se tornou literalmente a Muralha da China.

Foi de Jack Ma, da Alibaba, há alguns dias a frase: “Dentro de 12 anos, mais de 85% do comércio internacional será feito via e-commerce e o “made on the internet” deverá se impor em vez da etiqueta de “made in China” ou “made in Brasil”. Em trinta anos, apenas 1% do comércio global será offline, fora da internet.”

Para quem acredita que essa é um cenário longe da realidade, basta dar uma volta em qualquer centro comercial onde antes se caracterizava a venda de eletrônicos e afins. A grande maioria hoje vende apenas acessórios para celulares ou outros tipos de acessórios para tecnologia. O consumidor hoje já compra da China, EUA e outros países, através de players como Amazon, Ali Express, entre outros.

Se o varejo está aos poucos e à duras penas se adaptando a nova realidade, a cidade parece ainda estática em meio a tudo isso. No contexto das smart cities, muito se debate sobre novas tecnologias ou o novo papel da mobilidade e do trabalho, mas pouco se discutiu até hoje sobre o impacto que a realidade cada vez mais próxima irá causar no modelo de cidade como vemos hoje.

É fato que, por exemplo, as pessoas podem cada vez mais trabalhar em qualquer lugar, de acordo com sua conveniência, ou necessidade. Será que com a menor necessidade de se morar próximo ao local de trabalho, a verticalização da cidade ainda se fará necessária?

Com lojas onde a presença física, embora importante, se torne algo secundário, além de serviços que podem ser contratados de maneira cada vez mais prática e menos burocrática, onde o digital substitui o papel e não se faz mais quase necessário ir a algum local para obter algum serviço, qual será o papel do centro?

São diversas as questões que poderão mudar a maneira como vemos e usamos hoje a cidade. Será que depois do apocalipse do varejo veremos o verdadeiro apocalipse das cidades como hoje conhecemos?

Haverá centro?

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