Ecossistemas de negócios: o modelo de crescimento exponencial dos chineses

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Como é possível criar empresas com valor de mercado de centenas de bilhões de dólares em menos de 10 anos? Como prosperar em um ambiente de negócios altamente competitivo e em constante transformação?

A resposta dos chineses para essas perguntas é o Ecossistema de Negócios, modelo de organização de empresas que propicia crescimentos exponenciais, representados pela Sigla BATX – Baidu, Alibaba, Tencent e Xiaomi. Tais ecossistemas dominam o mercado chinês e representam empresas com 10 a 20 anos de existência e que combinadas tem um valuation superior a 1 trilhão de dólares.

A EVOLUÇÃO DOS MODELOS DE NEGÓCIO

Para entender como funcionam os Ecossistemas, é importante entender como os modelos de negócio evoluíram até chegarmos aqui.

 Modelo Centralizado:

Até a década de 90, a fórmula do sucesso das empresas eram os modelos centralizados. As empresas com esse modelo eram sinônimo de prosperidade e um dos seus grandes ícones da época foi a GE, liderada por Jack Welch. As empresas centralizadas são caracterizadas pelos grandes conglomerados onde o poder é absolutamente centralizado, todo o direcionamento estratégico e tático é determinado pelos poucos membros da direção. Travados pelas diretrizes, pelo orçamento, pela alocação de recursos e pela cultura, tudo acontece conforme o plano definido pelo topo da pirâmide.

Modelo Distribuído:

Com o início da digitalização do mundo nos anos 2000, as empresas perceberam a necessidade de ter maior agilidade no processo de decisão e maior velocidade de resposta e adaptação. Assim, diversas empresas começaram a distribuir seus negócios em unidades menores, com maior autonomia e de certa forma independentes.

Exemplos são os grandes conglomerados de mídia como a WPP, formados por empresas independentes, atuando em posicionamentos diferentes e com alguma coordenação estratégica central, mas com baixíssima sinergia entre elas.

Modelo Compartilhado:

A curva de aceleração do mundo aumentou ainda mais a partir de 2010. No ranking das 10 maiores empresas do mundo em 2018, 9 delas não estavam no ranking em 2008. A disrupção do mercado virou a regra do jogo. As empresas começaram a perceber que para sobreviver e prosperar nesse novo mundo era preciso aumentar dramaticamente a velocidade e sinergia entre seus negócios.

Um bom exemplo desse modelo é o Google, formado por empresas independentes, especializadas e com alta sinergia. O negócio do Google de Busca conversa e interage com o seu negócio de Mapas, que interage com seu negócio de Vídeo, etc.

Ecossistema de Negócios:

A nova realidade imposta é que o mundo acelera e muda em ritmo nunca antes visto na história e a tendência é de que continue acelerando em ritmo exponencial. A China definitivamente foi a economia que passou pela maior aceleração nos últimos 20 anos. Desde a sua entrada na OMC em 2002, a mudança no país foi brutal, saindo de 6º colocado no ranking dos maiores PIBs do mundo para 2º colocado em 2018 e que deverá ultrapassar os Estados Unidos em 2028, consagrando-se como a maior economia do mundo.

Não foi por acaso que os ecossistemas surgiram na China. A feroz competitividade desse mercado e ritmo de transformação forçou os chineses a buscarem novas formas de pensar e estruturar seus negócios, focados em agilidade, adaptabilidade e inovação.

Os ecossistemas são formados por diversas empresas absolutamente independentes e especializados nas suas atividades, com fortes lideranças que têm ampla autonomia para liderar seus negócios. A fortaleza do modelo vem através de um agente central coordenando estrategicamente esse ecossistema e da forte interconexão e sinergia dessas empresas. Na verdade, o principal diferencial competitivo delas é exatamente a união e combinação de competências, gerando um alto poder de inovação e disrupção nos setores em que atuam.

São organizações sem fronteiras, que buscam ativamente atuar em diversos segmentos da economia para combinar competências nunca antes combinadas, gerando assim a inovação.

Dado que a chave do sucesso desse modelo é a alta sinergia entre suas unidades, tais empresas precisam ser totalmente digitalizadas, obsessivas por dados e focados no consumidor, possibilitando uma sinergia de forma fluida e sem atrito.

Essa configuração de negócios permite que as suas companhias tenham autonomia, especialização, autoridade, rapidez, agilidade e foco, viabilizando uma adaptabilidade, inovação e crescimento em ritmo nunca antes visto. Permite que elas possam capturar oportunidades de negócio ou novas competências rapidamente através do ecossistema, que busca constantemente integrar expertises complementares gerando valor para todo o conjunto.

CASE ANT FINANCIAL

Lançado em 2010, a Ant Financial faz parte do ecossistema do Alibaba e oferece microcrédito para os vendedores que utilizam a plataforma da empresa. O cenário antes da Ant era de enorme dificuldade de capitalização com os bancos tradicionais da China, seja pelo alto valor do empréstimo mínimo de USD 1 milhão, seja pela inexistência de histórico de crédito dessas empresas perante os bancos.

Esse era um importante desafio para o Alibaba e que precisava ser endereçado, uma vez que os vendedores da plataforma não conseguiam crescer e atender a demanda dos compradores sem investir em aumento da sua produção.

Alavancando o potencial do seu ecossistema, o Alibaba criou a Ant Financial que oferece microcrédito aos vendedores da plataforma de maneira simples, funcional e segura. A principal diferença frente aos bancos tradicionais é que a Ant se vale dos dados que já trafegam no ecossistema do Alibaba – como histórico de transações, competitividade, estoque, etc. – aplicando algoritmos e inteligência artificial avançados para analisar e oferecer crédito sem burocracia a esses vendedores em questão de minutos.

Em apenas 8 anos de operação a empresa já emprestou mais de 15 bilhões de dólares para mais de 3 milhões de pequenas e médias empresas, com inadimplência 4 vezes menor que a média de mercado. Desde então, a Ant também já diversificou seus negócios para outros segmentos como pagamentos eletrônicos, mobile payment, processamento de pagamentos, score de crédito, etc.

A competência única desenvolvida pela empresa chamou a atenção do mercado. Em 2018, ela se tornou a startup mais valiosa do mundo, com valor de mercado de 150 bilhões de dólares.

 NOVOS TEMPOS

 Estamos vivendo novos tempos, onde as empresas que prosperarão não são aquelas que detém a marca mais valiosa ou até mesmo quem possui a melhor infraestrutura. Nos novos tempos quem sobreviverá serão as empresas com maior capacidade e velocidade de adaptação e inovação.

Novos tempos exigem novas regras do jogo, novos modelos e uma nova forma de pensar.

 

Nota:

A GS&MD realizará o “Ignition 360°” em abril deste ano, que levará uma delegação para conhecer os maiores cases e exemplos de inovação do varejo chinês. O roteiro envolve visitas de estudos, relacionamento e negócios às cidades de Beijing, Shangai, Shenzen, Hanghzou e Hong Kong. Para saber mais, acesse: http://retailignition.com.br/china/

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