THINKers e Doers

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Se preferirem, pensadores e fazedores. Parece que temos uma nova polarização acontecendo no mundo que, cada vez mais, se divide entre os que muito pensam e os que fazem acontecer.

Em mais uma viagem à China, observamos impactados como as coisas andam mais rápido por aqui. Se você esteve na China há três anos, vai ficar surpreso com o que encontra por lá.

Em pleno domingo empregados em obras, em limpeza pública e manutenção de forma geral, estão ativos em trabalho frenético fazendo as coisas acontecerem. Reuniões e encontros de negócios no domingo também são habituais.

Para além do 9-9-6, concepção usual na China, que significa das 9 às 9, seis dias por semana, estão avançando para o domingo para que tudo aconteça mais rápido. Os empregados públicos têm um dia de descanso semanal, mas o senso de urgência que impera faz com que as obras não parem sete dias por semana. Para isso, existem turnos de trabalho permitindo conciliar obras todos os dias com empregados revezando-se.

Como faz falta esse senso de urgência no Brasil nesse momento! Mind the Gap!!!
E o impacto é ainda maior, pois vindo de quatro dias de trabalho, em Milão, uma cidade vibrante em termos culturais, artísticos, de moda, gastronomia e muito mais, a distância atitudinal percebida é ainda mais marcante.

Uma Itália com problemas de déficits fiscais e previdenciários similares ao do Brasil, com redução e dramático envelhecimento da população, com dificuldades políticas ainda mais sérias que as nossas, se é que é possível, uma perspectiva de crescimento econômico extremamente limitada, tudo isso, na comparação direta com a realidade chinesa, lembra a fábula da cigarra e da formiga.

Na Itália, e em boa parte da Europa ocidental, de riquíssima tradição e padrão cultural, artístico e social, vive-se muito mais do passado do que do futuro. Pensa-se e discute-se muito de tudo o tempo todo. E o tempo destinado a diagnósticos, estudos e valorização de alternativas consome a maior e a melhor parte do tempo.

E existe menos dedicação para fazer acontecer.

Talvez a Alemanha seja a exceção nesse bloco, um lugar onde se quer esquecer o passado e construir o futuro. E para boa parte dos países da Europa Oriental, como Romênia, Polônia e outros, também está incorporada a mesmo postura.

Na China, de impressionante história, e que já foi o país mais desenvolvido do mundo, parece haver um senso de urgência absolutamente único. O que permitiu que num prazo relativamente curto, não mais que vinte anos, tivesse um salto quântico em termos de crescimento e desenvolvimento. Com impactos sociais incríveis.

Tornou-se a maior economia do mundo no critério PPP – Paridade do Poder de Compra e tem ano certo, e próximo, para ser o maior do mundo em qualquer critério.

Na China, o foco principal é fazer a partir de um direcionamento geral, pensado e articulado com foco e rapidez, e é na execução que está a diferenciação.

O que fez com que nesses vinte e poucos anos, negócios antes desconhecidos, se tornassem líderes globais, com Alibaba, Tencent, JD, Fossun, Didi e outros. E continuem a crescer de forma exponencial, menos do que no passado recente, razão pela qual, agora também buscam opções fora da China.

Em recente conference call com Mark Greeven, co-autor do livro Business Ecosystems in China, e que estará palestrando no LATAM Retail Show, em agosto, em São Paulo, tivemos oportunidade de conversarmos exatamente sobre esse tema.

O quanto esse modelo de negócio, dos ecossistemas, até agora vencedor por larga margem no cenário global, foca na execução para ser muito mais rápido na ocupação de espaços no mercado.

E não podemos esquecer as plataformas exponenciais, como Google, Amazon, Facebook e outras que são as versões ocidentais do modelo da nova organização empresarial emergente do cenário digital.

E todas trilham pela mesma direção do fazer mais e mais rápido e, se for para cometer erros, que sejam cometidos e corrigidos rapidamente.

Mark, naquela oportunidade mencionou que Jack Ma, o incensado fundador do Alibaba, hoje só se envolvia em temas onde o eventual erro não teria retorno possível. Tudo isso parece fazer muito sentido.

No passado, o futuro podia ser previsto, avaliado, medido e, de alguma forma planejado. Hoje, não mais.

O futuro é incerto, volátil e muda sua configuração a cada momento pela mão da tecnologia e da transformação digital, impactando absolutamente tudo ao nosso redor.

Isso parece determinar essa polarização que assistimos no mercado, nas empresas, nos países e na Sociedade de forma geral.

Entre os que muito pensam e discutem e os que fazem acontecer, o pêndulo parece pender positivamente para os que agem para transformar antes de serem transformados.

Como tudo na vida, é uma questão de peso relativo, o que significa que não se deve desprezar o planejamento, organização e alinhamento mas, que isso não gere um excessivo tempo e perda de foco, a ponto de comprometer a capacidade de realização.

E isso aparenta ser o novo paradigma sobre o qual vale a reflexão: como deve ser a cultura dominante nas organizações, nos negócios, nas empresas e nos setores que serão vencedores dentro da nova realidade? A dos pensadores ou os que fazem acontecer?

E mais importante, como obter um ponto de equilíbrio saudável e mais rentável entre ambos como uma nova cultura empresarial?
Vale refletir.

NOTA: Marc Greeven estará participando no LATAM Retail Show, em agosto, em São Paulo, em um painel especialmente focado nas transformações que os Ecossistemas de Negócios na China estão precipitando no mundo, na sociedade e no varejo.

* Imagem reprodução

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