O que a queda da Forever 21 pode ensinar para os shopping centers e varejo de moda

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O domingão passado caminhava preguiçoso para o seu final quando a bomba estourou nos sites de notícia: a Forever 21 havia entrado com pedido de recuperação judicial e anunciava o fechamento de 350 lojas, incluindo 178 unidades nos Estados Unidos.

O infortúnio dessa gigante do fast fashion não foi exatamente uma surpresa. Afinal, suas receitas globais vinham caindo constantemente. Se em 2016 elas totalizaram 4,4 bilhões de dólares, ano passado não passaram de 3,3 bilhões, uma queda de 25%.

Mas o impacto do tombo da Forever 21 não se limita aos seus acionistas, empregados e credores. O fato é significativo também para o varejo de moda como um todo – e para os shopping centers, claro.

A Forever 21 é ainda hoje uma das maiores no fast fashion. Surgida em 1984, pelas mãos de um casal de imigrantes coreanos, em Los Angeles, a marca traz em seu nome a proposta de falar com um público que gostaria de se sentir sempre com 21 anos. O problema é que esses consumidores parecem não querer mais abraçar a ideia do fast fashion para sempre.

Questões ambientais, que colocaram em cheque o conceito descartável do fast fashion, a competição de marcas vindas do mundo digital e novos modelos de negócio, em particular a venda de roupas usadas e por assinatura, que recebeu recentemente a adesão de empresas tradicionais, como Bloomingdale’s, Urban Outfitters e Gap (leia também Usufruir é melhor que possuir: a revolução dos produtos usados e alugados), reduziram o apelo da combinação de novidade com preços acessíveis, na qual se apoiam a Forever 21 e seus concorrentes diretos.

Porém, as mazelas da Forever 21 não resultam apenas das restrições dos consumidores ao outrora promissor segmento do fast fashion. Ao contrário dos seus concorrentes diretos, os coreanos podem ainda ter ido com muita sede ao pote da expansão. Em menos de 6 anos, a presença internacional da Forever 21 saltou de 7 países para 47. Também em terras americanas houve um intenso esforço para multiplicar os pontos de venda. Para efeito de comparação, hoje a rede possui 549 lojas nos Estados Unidos, enquanto a Zara não passa de 85. O exagero incluiu montar uma megaloja na Times Square, com 9 mil m2 de área, distribuídos em quatro pisos e a inacreditável quantidade de 151 provadores. A combinação explosiva de mudança no gosto dos consumidores com alavancagem excessiva, necessária para financiar essa expansão agressiva, foi determinante para o momento delicado que a rede atravessa.

Você pode se perguntar: e o que os shoppings têm a ver com tudo isso?

Bem, os shopping centers americanos, que já vêm sofrendo nos últimos anos com o ceticismo de muitos em relação ao seu futuro, não passarão ilesos da derrocada da Forever 21. De fato, as duas maiores redes dos Estados Unidos, Simon e Brookfield (que adquiriu recentemente a GGP) até tentaram evitar o desastre, trocando créditos por participação na Forever 21, mas a negociação naufragou. Agora, devem ver mais lojas fechadas em seus malls.

Para se ter ideia do tamanho do problema, esse ano o varejo americano já anunciou o fechamento de 8.558 lojas, segundo dados da Coresight. No mesmo período foram abertas apenas 3.446 unidades, o que totaliza um saldo negativo de mais de 5 mil lojas. Esse déficit aumentará ainda mais nos próximos meses com o fechamento das lojas da Forever 21 e outras. Parte dessas lojas fechadas estão localizadas em shoppings decadentes, que não souberam ou puderam se atualizar.

Além de ver aumentar a vacância em seus empreendimentos, as redes de shoppings com lojas da Forever 21 fechadas ainda podem receber solicitações de renegociação de aluguel dos demais inquilinos que possuem cláusula de co-tenancy, que permite ao locatário rever seu contrato caso alguma loja âncora deixe o shopping.

A dúvida é: de que maneira tudo isso pode afetar o varejo e os shoppings no Brasil?

A Forever 21 anunciou que, a princípio, não fechará lojas na América Latina, o que já é uma boa notícia. Mas os problemas na matriz podem sim, no médio prazo, afetar o desempenho da sucursal brasileira, o que significa que nossos shoppings devem botar as barbas de molho, em especial aqueles que fizeram investimentos importantes para contar com a marca em seu mix.

Por outro lado, a crise do fast fashion é mais um alerta de que os shoppings devem reduzir um pouco a sua dependência das marcas de moda. De certa forma isso já vem acontecendo, com o crescimento das áreas dedicadas a serviços, alimentação e entretenimento.

Em resumo: não é preciso entrar em desespero. Mas é de bom tom considerar a queda da Forever 21 como mais um capítulo da complexa história da transformação do varejo e dos shopping centers. Afinal, o inverno está chegando. 😉

*Imagem reprodução

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