5 lições da Ásia contra a covid-19 para os negócios

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Asia Covid-19
[tempo para leitura: 4 minutos]

Nas palavras do líder do observatório na China da OMS, Dr. Bruce Aylward, a China implementou com sucesso a mais ambiciosa, ágil e agressiva estratégia de contenção de uma doença contagiosa da história. Tamanha conquista necessariamente traz profundos aprendizados que podem ser desdobrados e traduzidos para inúmeras realidades, gostaria de explorar com vocês nesse artigo quais são as lições que as empresas podem aprender com esse feito único na história do mundo.

O QUE NÃO É MEDIDO NÃO PODE SER GERENCIADO

A China identificou em tempo recorde e com pouquíssimos casos a existência de um novo corona vírus na população (apesar de ter ocultado tais informações inicialmente), algo que pouquíssimos países teriam a capacidade, processos e infraestrutura para fazer.

Ao monitorar constante e sistematicamente o surgimento de uma possível crise epidemiológica, o país pôde ter uma ação rápida e eficaz para controlá-lo, além disso, a China também implementou rapidamente e em larga escala os testes para confirmar pacientes positivos na Covid-19, tudo de forma gratuita no sistema se saúde para identificar e isolar potenciais pacientes disseminadores do vírus.

Lição #1: Nas nossas empresas não é diferente, temos que medir com o mesmo rigor e disciplina os aspectos chave (e somente eles) da operação e da estratégia, se algum deles sai de sua trajetória planejada uma ação imediata e contundente se faz necessária. O segredo aqui é saber o que medir e agir rápido.

PDCA – APRENDER E CORRIGIR

Não foi por acaso que a China e os países asiáticos mais desenvolvidos montaram tamanha infraestrutura de controle, monitoramento e combate à uma crise epidemiológica, eles aprenderam com os próprios erros. Temos que lembrar que a região foi a mais afetada pelas pandemias mais recentes da nossa história como a SARS e a MERS, inclusive China, Coréia do Sul e Singapura foram amplamente criticados na época por sua lentidão na tomada de decisões e pela pobre infraestrutura para enfrentar o problema.

Lição #2: temos que ter obsessão por mitigar os erros, claro que quanto mais trabalhamos e nos esforçamos menor será a quantidade e gravidade deles, mas eles irão acontecer invariavelmente, dessa forma não basta apenas identificarmos os erros, temos que tomar medidas enérgicas e estabelecer processos rigorosos para que eles não se repitam.

SE DADOS SÃO O NOVO PETRÓLEO, TENHA UM POSTO DE GASOLINA

O governo Chinês valeu-se do (assustador) poder que detém sobre os dados e o controle que tem dos seus cidadãos para conter o vírus, essa experiência nos mostra o real poder de transformação dessas tecnologias.

Uma vez que um cidadão era identificado com Covid-19 todo o seu histórico de relacionamentos e deslocamento era levantado, mapeamento assim as pessoas com que teve contato através do deslocamento do seu celular, das pessoas com quem trocou mensagem e do seu deslocamento nas cidades, tudo isso feito através da rede governamental de monitoramento que conta com mais de 350 milhões de câmeras espalhadas pelo país (1 câmera para cada 4 pessoas), arquitetura e capacidade de processamento de dados, algoritmos e bancos de dados de reconhecimento facial e monitoramento de atividades em âmbito digital e no mundo real.

As pessoas que por ventura tiveram contato imediato com outro cidadão identificado com o covid-19 eram imediatamente notificadas pelo WeChat e comunicadas que deveriam se colocar em auto quarentena por 14 dias, seu estado de saúde era monitorado diariamente e claro que seu deslocamento foi rigorosamente monitorado pelo mesmo sistema governamental.

Lição #3: o poder dos dados é uma realidade, as empresas que não coletam, armazenam, disponibilizam e exploram tais informações estão jogando pela janela seu ativo mais precioso. Não basta ter os dados, as empresas precisam deixá-los disponíveis para a organização e saber usá-los da maneira correta – não basta ter o petróleo, é preciso ter também o posto de gasolina.

FOCO

A China será até 2030 a maior economia do mundo, uma país com tamanho poder de fogo  direcionou todos os seus recursos para o foco do problema, de forma a tratá-lo de maneira contundente e eficaz, realocou uma parcela relevante da sua infraestrutura de saúde para o epicentro da crise na província de Hubei (Wuhan é a maior cidade da região), voou equipamentos e mais de 20.000 profissionais de saúde para as áreas afetadas, fez também a destinação imediata de recursos financeiros, construiu uma impressionante infraestrutura para tratamento e isolamento de pacientes onde era necessário (quem não ficou impressionado com a construção de um hospital para 1.000 pessoas em 10 dias?).

Lição #4: Foque nas grandes pedras que você deve quebrar, é preciso ter poucos e bons projetos para focar, direcione todos os seus esforços e recursos, são eles que farão a diferença no final do dia.

VELOCIDADE, VELOCIDADE, VELOCIDADE

Segundo o mesmo comitê da OMS que citei no início do artigo, a maior lição a ser aprendida com a resposta Chinesa é velocidade, “velocidade é tudo”, nas palavras do diretor da OMS.

Antes mesmo de ter mil casos a região de Wuhan foi completamente fechada, estamos falando de uma cidade com 11 milhões de pessoas que teve toda a sua população completamente isolada em suas casas, transporte público interrompido, apenas pessoas com autorização especial do governo poderiam sair nas ruas, em questão de dias tais medidas também foram tomadas em outras 15 cidades chinesas impactando mais de 60 milhões de pessoas. As medidas de contenção da população foram aplicadas em questão de horas depois que foram anunciadas pelo governo.

Foram construídos sistemas de triagem e isolamento em todos as regiões foco da doença, pessoas que apresentaram sintomas poderiam se encaminhar para esses centros onde rapidamente eram triados, diagnosticados e eventualmente isolados.

E não foi só isso, outras medidas igualmente importante foram tomadas e implementadas em dias: aumentou-se de 1 mês para 3 meses as receitas de medicamentos de uso contínuo e controlado para que os pacientes pudessem ter acesso aos remédios mesmo durante a quarentena, temporariamente autorizaram que médicos concedessem receitas de medicamentos online através do WeChat (superapp Chinês com mais de 1 bilhão de usuários ativos na China), foi estabelecido um sistema de entrega de medicamentos diretamente nas casas das pessoas, etc.

Lição #5: há algum tempo falamos sobre os ecossistemas de negócios asiáticos, comentamos que são estruturas organizacionais desenhadas para a agilidade e flexibilidade, comentamos também que que essa cultura está intrinsecamente impregnada em toda a sociedade, a velocidade de resposta sem precedentes contra a covid-19 foi a maior prova disso. Essa velocidade de transformação do mundo é o novo normal, temos que preparar nossas empresas, nossos times e nosso modelo mental para essa nova realidade.

NOTA FINAL: nem tudo são flores, sabemos que o China é um país autoritário que aplicou com mão de ferro uma política de controle para reduzir a disseminação do vírus, sabemos também que o país tentou ocultar os fatos sobre vírus no início da crise e que pode sim estar manipulando os números de casos e mortes. Tenho a obrigação de mencionar que não concordo com muitas políticas em curso no país, políticas essas que tornaram possíveis as muitas das medidas mencionadas nesse artigo através do amplo, profundo e implacável sistema de monitoramento e controle dos seus cidadãos.

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